Qual a melhor metodologia para ensinar? Quais as “dicas” para ter sucesso? Como agir? Assim ou assado? Não existe uma “receita de bolo” – mas é possível conhecer os ingredientes. Neste texto, Nara Salamunes resgata um pouco da história dos currículos para formar alfabetizadores, e coloca em discussão uma nova proposta.
Alfabetizadores: o currículo em transformação
Por Nara L. C. Salamunes
Antes de discutir uma proposta de currículo para formação de alfabetizadores, é importante analisar como esta formação se deu no Brasil, historicamente. Até 1980, os cursos de formação de professores, cursos de nível médio, ou enfatizavam os métodos sintéticos e o ensino passo a passo de elementos componentes da escrita, ou davam preferência aos métodos analíticos e o ensino das configurações estruturais dos textos e frases. Ah, você pode pensar, mas no ensino superior era diferente! Que nada. Na Pedagogia, raramente a questão da alfabetização tinha lugar privilegiado. Quando muito, discutiam-se os altos índices de repetência nas primeiras séries, que giravam em torno de 50%, e a conseqüente evasão escolar. Não se levava em conta o pensamento das crianças, às quais era atribuída a culpa pela não aprendizagem.
Entra em campo a psicogenética
Por volta dos anos 80, os estudos psicogenéticos sobre a aprendizagem da linguagem escrita e os da psicolingüística possibilitaram uma mudança de perspectiva. Procura-se, desde então, estudar os processos cognitivos subjacentes às habilidades de ler e de escrever e as evidências empíricas sobre como se dá o desenvolvimento dessas habilidades. Antes, o sujeito do processo da alfabetização não era considerado na sua condição de aprendiz. Agora, passa a ser observado para que suas elaborações originais sejam compreendidas e respeitadas.
Mas nada mudou…
Só tem um problema: esses estudos ocorrem, marcadamente, nos cursos especializados em alfabetização. Os cursos de formação de professores de nível médio continuam a resistir às mudanças. Não revisaram a noção de erro, decorrente da mudança paradigmática, ou tratam esse tema de forma romântica e aligeirada. A crítica aos métodos de alfabetização ensinados nesses cursos levou ao esquecimento o estudo criterioso da relação entre fazer e compreender na alfabetização. Nos cursos de nível superior, o assunto alfabetização continua sendo ignorado. O resultado: oferta de “formação” para profissionais, em vez de aperfeiçoamento e atualização. Pior: os índices de repetência nos primeiros anos do ensino fundamental continuam altos e analfabetismo funcional se perpetua, mesmo entre os que passam pela escola.
Neurociência, a nova aliada
Recentemente, os estudos da neurociência possibilitaram o aprofundamento sobre os processos mentais que ocorrem ao se aprender a ler e escrever. Disso decorrem duas concepções psicopedagógicas atualmente: uma privilegia a compreensão dos processos orgânicos da aprendizagem – mas esquece, em parte, os processos de interação que são condição para a construção de estruturas lingüísticas. A outra tenta compreender o sujeito aprendiz no âmbito das interações sociais e lingüísticas – mas esquece de considerar que o fator escola/professor é fundamental na transmissão da cultura em uma sociedade complexa, mesmo com todo aparato tecnológico existente na atualidade.
Em busca de uma saída
Diante desse quadro, qual seria o melhor currículo para formação de alfabetizadores? Alguns pontos são fundamentais. Por exemplo, a análise dos aspectos históricos do ensino da leitura e da escrita, porque se aprende com a experiência. Também é importante analisar os processos construtivos das habilidades lingüísticas, junto com outras habilidades mentais humanas no bojo das interações de diferentes grupos sociais. Mas não podem ficar de fora os resultados das pesquisas científicas transculturais, de cunho comparativo, sobre os diferentes métodos empregados na alfabetização. Afinal, a prática da docência não é meramente discursiva. Ao contrário, requer tomada de decisão permanente sobre o que, quando, como e por que ensinar – e tudo isto deve constar do currículo, um currículo em constante transformação, para que o professor também transforme o mundo.
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A alfabetização dos alunos nos dias atuais apresenta-se num processo vagaroso e longo. Ao passo que, em tempos remotos, pensava-se poder ensinar as crianças a ler e escrever em um ano de estudo, hoje pensa-se que são fundamentais pelo menos três anos para chegar à leitura e à escrita correntes. Isso porque neste período a ênfase passou da decifração para a compreensão dos textos e da capacidade de grafar à produção de textos escritos. Os conhecimentos lingüísticos permitiram que se concebesse de forma muito mais rigorosa uma progressão de aprendizagens na língua oral. Isso fica claro quando se faz uma releitura aos teóricos engajados nestes estudos. Por isso, iniciou-se a organizar melhor a passagem da linguagem oral para a linguagem escrita, mesmo que ainda falte muito a ser feito neste sentido.