Relações Possíveis

As instituições de ensino são organizações sociais. Nelas, as relações humanas se desenvolvem de acordo com múltiplos interesses, pois existem vários grupos interagindo. São organizações complexas, que para implementarem ações sustentáveis, precisam de criatividade. Mas como fazer quando, na classe, surge um aluno que possui necessidades especiais? Aqui, a Profa. Heloiza S. De Camargo conta um pouco da sua experiência.

ESQUIZOFRENIA, COGNIÇÃO E AFETIVIDADE

Heloiza S. de Camargo

As instituições de ensino são contraditórias. As vezes, apenas privilegiam a manutenção do status quo, formando o ser humano para reproduzir o sistema institucional vigente. Outras, buscam formar este mesmo ser humano para construir e dar significado a seus atos, para interferir e modificar a sociedade onde está inserido. O espaço escolar é um espaço de vivência social, com desafios e pressões impostos tanto de dentro do próprio ambiente como de fora dele.

Múltiplas Inteligências

Para enfrentar tais pressões e para agir com o mundo e no mundo, cada sujeito precisa ser capaz de apresentar uma elevada capacidade cognitiva e decisória. No caso de educandos com dificuldades de interação e integração dentro do espaço escolar, estes desafios são ainda maiores – mas podem ser superados com uma abordagem que se apóia na tese das inteligências múltiplas.

A História de W. G. R., 14 anos

O aluno W. G. R. com 14 anos, matriculado na 5a série do Ensino Fundamental, apresentava sérias dificuldades de integração e interação, com distúrbios, atitudes e reações típicas de esquizofrenia. O diagnóstico foi confirmado em laudo fornecido pelo psicopedagogo que acompanhava o caso. Sua agressividade incontrolável e conduta inadequada deixaram assustados professores e colegas, que tinham dificuldade para entender suas atitudes. Seu comportamento considerado ”anormal” gerou abaixo assinados de professores, alunos e pais, solicitando seu afastamento da escola. Qualquer possibilidade de integração parecia bloqueada.

O processo

Sensibilizada e comovida diante do conflito vivido no espaço escolar, a professora da sala de recursos – autora desse post – e a equipe pedagógica buscaram resgatar a história pessoal de W. G. R., junto à família. Isto permitiu compreender sua rejeição e agressividade para com familiares, colegas, professores e funcionários. Depois de observar as dificuldades relacionadas à afetividade e conseqüente na socialização com os colegas e professores, W. G. R. foi encaminhado para inclusão na sala de recursos, seguindo um programa especializado. Muitas vezes foi necessário intervenção clica (o que é comum nestes casos), para contornar momentos de crises mais agressivas. Na sala de recursos, W. G. R. descobriu a poesia. Utilizou a semântica para aprender o significado das palavras, a sintática para ordená-las, adquiriu consciência fonológica para perceber os sons, ritmos e inflexões. Na prática, fez da sensibilidade da linguagem poética seu instrumento de realização pessoal.

O resultado

W. G. R. reconstruiu seu estado emocional e transferiu toda a energia empregada na agressividade física, verbal e emocional para a poesia. Encontrou nela a resposta para seu equilíbrio afetivo, emocional e social, ampliando cada vez mais o seu conhecimento cognitivo, de forma prazerosa. A abordagem possibilitou a inclusão do aluno, efetivado pelo apoio e orientações ao corpo pedagógico sobre as dificuldades referentes às relações afetivas, integração e socialização no espaço escolar.

E você? Enfrenta algum desafio para inclusão de alunos com dificuldades especiais? Tem alguma experiência para compartilhar? Quer saber mais sobre este assunto? Escreva para nós! Afinal, o professor precisa ter uma formação adequada para desempenhar seu papel de forma integral. Como seria o currículo para formar um professor? Isto já é assunto para o próximo post.

Uma resposta

  1. Um jeito de aprender se estabelece, quando se concebe a aprendizagem como construção/desconstrução de conceitos/conhecimentos. Neste contexto, o aprender supõe a processualidade e, nesse caminhada, não pode ser entendida como movimento que percorre uma linha estratificada, e sim por movimentos rizomáticos de um pensamento que é concebido por modos e intensidades diferentes, produzindo caminhos diferenciados, linhas que se articulam a outras se produzindo sucessivamente.

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